Quem um dia não se queixou de dor nas costas?

Por vezes nos queixamos de lombalgia depois de ter realizado algum esforço físico sem preparo, como por exemplo fazer uma mudança de casa e, em outros momentos, referimos a mesma dor depois de uma viagem de carro que durou três ou quatro horas. Estes episódios são completamente diferentes mas podem resultar em dores da mesma forma, você consegue imaginar o porquê?

Apresentamos lombalgias uma gama muito grande de possibilidades, mas as mais comuns são: esforço muscular excessivo em musculatura despreparada e hipotonia muscular. Vou esmiuçar mais estes fatos, mas antes, vamos entender um pouco da epidemiologia das lesões de coluna.

Segundo Toscano e Egypto (2001) existe um pequeno volume de dados epidemiológicos nacionais a respeito dos agravos que acometem o sistema ósseo-músculo-esquelético da coluna vertebral, contudo, devido aos levantamentos realizados no Brasil, alguns autores se mostram preocupados com os indícios definindo-os como uma epidemia branca. Espera-se na atualidade que todas as pessoas irão apresentar, pelo menos, quadro álgico lombar em algum momento de sua vida!

Estudos epidemiológicos apontam a prevalência das lombalgias na população em geral entre 50% a 80%. (HELFENSTELN et al, 2010). A dor lombar, um dos principais motivos de consultas médicas, hospitalizações, intervenções cirúrgicas, faltas no trabalho e invalidez prematura! Pois é, que jogue a primeira pedra quem nunca sentiu!

Classificação das lombalgias segundo Helfensteln, et al (2010):

  • Primárias ou secundárias.
  • Comprometimento neurológico ou não, mecânico-degenerativa, não mecânica, inflamatória, infecciosa, metabólica, neoplásica ou secundária a repercussão de doenças sistêmicas.
  • Lombalgias não orgânicas (importantes no contexto ocupacional ou pericial) à custa dos frequentes ganhos secundários: secundárias à síndrome de Munchausen (pouco frequente), as lombalgias simuladas com o interesse direto e consciente de ganhos secundários óbvios (usualmente financeiros) e as lombalgias psicossomáticas, secundárias a conflitos psicológicos usualmente inconscientes, podendo ou não ser acompanhadas de queixas somáticas.
  • Do ponto de vista do comprometimento dos tecidos como de origem muscular e ligamentar: lombalgia por fadiga da musculatura paravertebral e lombalgia por distensão muscular e ligamentar; de origem no sistema de mobilidade e estabilidade da coluna: lombalgia por torção da coluna lombar ou ritmo lombo-pélvico inadequado e lombalgia por instabilidade articular; de origem no disco intervertebral: lombalgia por protrusão intradiscal do núcleo pulposo e lombalgia por hérnia de disco intervertebral; e como predominantemente psíquica: lombalgia como uma forma de conversão psicossomática ou objetivando ganhos secundários.
  • Pode ser ainda classificada como estática, quando ocorre devido à má postura (sobrecarga estática), ou cinética, quando decorrente de sobrecargas de movimentação.
  • A lombalgia aguda, geralmente relacionada a comprometimento de ligamentos, músculos e/ou lesões dos discos intervertebrais, é caracterizada pela presença de dor de início súbito com duração inferior a seis semanas. Na maioria das vezes é autolimitada e dura em média de um a sete dias. Cerca de 90% dos pacientes se recuperam espontaneamente, 60% retornam para as suas funções no prazo de um mês e 30% a 60% dos pacientes podem apresentar recidiva da dor em um ano a dois anos. A lombalgia subaguda tem duração de seis a doze semanas. Neste caso, o retorno à função habitual ocorre em até três meses. A lombalgia crônica ocorre em somente cerca de 8% dos casos, ultrapassa 12 semanas, compromete a produtividade e tem maior dificuldade de se resolver por completo.

Entre as inúmeras causas e fatores de risco que estão relacionadas as lombalgias, a inatividade física parece ser a mais importante! E, se analisarmos com um pouco de critério, a única que poderíamos prevenir sem custo nenhum!

Como bem Hipócrates já afirmava “Se pudermos dar a cada indivíduo a quantidade exata de nutrientes e de exercício físico, que não seja insuficiente nem excessiva, teremos encontrado o caminho mais seguro para o bom desempenho e para a saúde”.

Este grande estudioso acreditava nas suas observações e estudos que os músculos débeis traziam lesões e, portanto, que existia necessidade de fazer-se exercícios físicos regulares.

A etiologia das lombalgias com certeza é multifatorial! É inapropriado pensarmos em uma única causa ou mesmo decifrar a principal causa geradora da lombalgia é uma tarefa extremamente difícil. Para Helfensteln, et al (2010) “Na gênese da lombalgia estão envolvidos fatores de risco individuais e profissionais.

A idade, a postura e a fadiga no trabalho são consideradas como fatores contribuintes para a elevada percentagem de recidiva da dor lombar. O trabalho sentado por longas horas, o trabalho pesado, o levantamento de peso, a falta de exercícios físicos e os problemas psicológicos representam alguns dos principais fatores que contribuem para a cronicidade da dor lombar”.

Os exercícios físicos regulares podem contribuir de forma importante na prevenção de síndromes dolorosas na coluna por proporcionar, através de programas de força e flexibilidade, maior conscientização da postura. Contudo é importante ressaltar que atividades praticadas sem orientação adequada podem representar problemas, assim como esforços musculares acentuados e repetitivos, bem como atividade física esportiva com fins competitivos aumentam o risco de lesões. Importante é pensarmos que nem todo exercício implica fator de proteção para a coluna! Os cuidados com o tipo de exercício, nível de atividade, carga de trabalho, postura corporal na infância/adolescência também são merecedores de criteriosos cuidados.

O grande “bode expiatório” da lombalgia crônica certamente são os déficits de força muscular em função de que a atrofia muscular resultante leva a sobrecarga de outras estruturas lombares, bem como a diminuição da coordenação do correto movimento a ser realizado pelas estruturas osteomioarticulares, nos esforços de levantamento de peso nas atividades diárias. (TOSCANO e EGYPTO, 2001)

Precisamos pensar que além de prevenirmos os problemas lombares com melhora da saúde muscular paravertebral, temos que ter foco nas mudanças de hábitos dos indivíduos para que a recidiva não aconteça. Hoje as estatísticas são de 60% de retorno das características da dor!

E por fim, faço um alerta sobre os repousos. Para a fase aguda certamente descansar a articulação vertebral é eficaz para o tratamento. Contudo esse repouso não pode ser prolongado (+3 a 5 dias) devido à ação deletéria da inatividade sobre o aparelho locomotor.

Entre os tratamentos da medicina tradicional estão o uso de anti-inflamatórios, analgésicos, relaxante muscular, antidepressivos tricíclicos, infiltração epidural com glicocorticoides, anestésicos ou opioides e, por fim, tratamento cirúrgico. Para nós da medicina preventiva, o alívio de sobrecarga, promoção de um ambiente laboral favorável e a prática regular de exercícios orientados é a com certeza a forma mais segura e impactante para a saúde da coluna vertebral.

Pense nisso,
Se exercite

Referências

TOSCANO, J.J. de O.; EGYPTO, E.P. A influência do sedentarismo na prevalência de lombalgia. Rev Bras Med EsportE. Vol. 7, Nº 4 – Jul/Ago, 2001.

HELFENSTELN JR.,M.; GOLDENFUM, M.A.; SLENA, C. Lombalgia Ocupacional. Rev Assoc Med Bras. 2010; 56(5): 583-9.

 

Escreva seu comentário sobre esse post!