Nestes tempos de Copa do Mundo fico vidrada na TV analisando os jogos e não consigo ficar sem observar a condição física impressionante destes atletas, e, é claro, de me preocupar e questionar sobre as lesões as quais são expostos.

Você já percebeu, por exemplo, que a lesões mais frequentes que tiram os atletas de campo são as de origem muscular e que elas acontecem no final do segundo tempo de partida? Vocês sabiam que o desequilíbrio do acoplamento de forças nos membros inferiores entre músculos anteriores e posteriores da coxa (razão isquiotibiais/quadríceps) tem sido considerado um importante fator de risco para lesões?

Aproveito esta deixa da Copa e escrevo este artigo sobre lesões e suas formas de prevenção. Acompanhe o texto até o final e deixe suas dúvidas.

                Por que as lesões acontecem?

Segundo Árnason (2017): “Lesões, em geral, ocorrem se a carga biomecânica se torna mais alta do que a tolerância estrutural”, ou seja, quando se aplica uma força em certo movimento para o qual a musculatura ou estrutura articular e seus componentes não estava preparada. Você pode estar se perguntando sobre as lesões crônicas, bom essas ocorrem em decorrência da carga excessiva aplicada sobre as estruturas por longos períodos de tempo de uso.

O tipo de lesão e sua gravidade dependem de uma grande quantidade de fatores, divididos na literatura em intrínsecos e extrínsecos, portanto, ou estão relacionados ao próprio atleta ou a fatores ambientais.

Liebenson (2017) elenca alguns fatores de risco para lesões no esporte:

  • Relacionados ao esporte: treinamento versus competição, nível de participação, exposição ao jogo, qualidade do técnico, aquecimento, posição no jogo, regras do esporte e lesões prévias;
  • Relacionados a forma física: instabilidade articular, força muscular e razões de potência, flexibilidade, capacidade aeróbica, fadiga, massa corporal e IMC, estatura, potência e velocidade;
  • Outros fatores: psicológicos, nível de estresse, mentalidade combativa, comportamentos de risco, condições climáticas e equipamentos;
  • Fatores imutáveis: idade, genética, etnia e gênero.

Ufa! São muitos os fatores! Vou escrever sobre alguns que acredito serem muito relevantes.

Estar em competição aumento o risco de se lesionar. Normalmente nos exigimos muito quando estamos em um evento real, mesmo que uma corrida de rua para um atleta amador, vestir a camiseta da prova já aumenta a secreção de endorfinas e, mesmo que inconscientemente, o “pace” (ritmo/Km) diminui. Você já vivenciou isso?

Imagine agora se você estivesse em uma Copa do Mundo, no um contra um para fazer o gol… vai certamente exigir no limite máximo das suas capacidades físicas, não vai?

O segredo para evitar lesões neste cenário é preparar a musculatura, articulações e componentes para esforços intensos, nada mais! É estar com pace de 6:00 min./Km mas preparado para desempenhar os 5:50 min./Km, sem risco. O treinamento físico deve ser específico e direcionado para chegar no melhor desempenho durante os eventos/competições alvo, e, sem dúvida, vivenciar muscularmente as possíveis exigências que as estruturas anatômicas terão em uma partida ou corrida. Nosso sistema musculoesquelético e articular guarda memória das atividades realizadas, portanto, quando mais dinâmico for o treinamento e mais próximo do que será executado no dia da prova, menor a chance de lesões.

Outro ponto que destaco é a fadiga acentuada. Um estudo realizado por Hawnkis (1999), em atletas de futebol, demonstrou que a maioria das lesões, especialmente as distensões musculares, ocorre na parte final das partidas (final do 2° tempo). Estas ocorrências podem ser explicadas devido a fadiga muscular que causa menor absorção de força, afeta as propriedades mecânicas musculares e reduz a tolerância às cargas, aumentando a incidência de lesões. Para além de preparar os atletas/amadores para os esforços de longa duração, devido a estas exigências, é importante ressaltar a necessidade de tempos de repouso muscular entre as sessões de treino, evitando o overtraining e permitindo que o organismo tenha tempo hábil para se restabelecer do estresse fisiológico sofrido com o treinamento, o que garantirá a supercompensação.

Aquecimento e não alongamento é uma ótima estratégia para evitar lesões no pré-treino ou antes de iniciar a competição. Ele aumenta o fluxo sanguíneo e consequentemente o transporte de oxigênio para os músculos o que proporciona um upgrade das capacidades elásticas musculares e eleva o metabolismo celular, também reduz a rigidez do tecido conectivo, aumentando a amplitude dos movimentos e acelerando o impulso nervoso. Preciso escrever mais alguma coisa para convencer você de que o aquecimento é fundamental para evitar lesões? Aqueça preferencialmente com os movimentos que serão realizados no evento chave/foco, não realize atividades balísticas, busque concretizar atividades aumentando a velocidade e a amplitude dos movimentos lentamente. Se o exercício será realizado com sobrecarga, faça aquecimentos com cargas menores e maior volume de repetições para lubrificar e ativar as estruturas articulares que serão exigidas.

E vocês sabem qual o fator de risco mais reconhecido para o surgimento de novas lesões? A resposta correta são as lesões prévias! Estudos realizados com atletas de modalidades diversas demostraram que lesões recorrentes em região de virilha e isquitibiais são de 2 a 11 vezes mais comuns naqueles que já tiveram afecções prévias nestas áreas; quando avaliadas as lesões de ligamentos do tornozelo e joelho a chance de recorrência é 5 vezes maior em quem tem história prévia. Investiga-se que alterações estruturais pós-lesão ou formação de tecido cicatricial nos músculos ou tendões podem ser os responsáveis pelo aumento da incidência. Tais alterações podem resultar em diminuição da força, elasticidade ou coordenação neuromuscular, ficando os músculos e estruturas articulares menos capazes de absorver força.

Para tanto, lesões prévias devem ser analisadas com muito critério e sempre observadas pelos educadores físicos, fisioterapeutas e médicos do esporte com vias de esclarecer e predizer as consequências mecânicas as quais o cliente será acarretado. É muito comum, por exemplo, encurtamentos musculares devido aos posicionamentos antálgicos estabelecidos por muitos dias. Então, se vale as dicas, destaco abaixo três pontos:

  1. Reposicionamentos anatômicos devem ser estudados!
  2. Reforço muscular e treinamento voltado para as articulações acometidas por lesão devem existir para o resto da vida!
  3. Instabilidades funcionais aumentam a prevalência de lesões, fato que deve ser sempre corrigido, e, apesar de haver melhoras importantes, manter vigilância permanente para evitar que as lesões reapareçam.

A redução da força muscular pode propiciar lesões, diferente da capacidade de flexibilidade, que, por incrível que pareça, não tem comprovação científica de sua relação direta com as lesões. A maioria dos estudos até o presente momento não tem encontrado relação entre músculos encurtados e distensões musculares. Por outro lado, a massa corporal aumentada amplia a carga sobre as articulações, ligamentos e músculos podendo ser considerado um fator de risco para lesões por excesso de uso e osteoartrite.

Entre os fatores imutáveis grifo a idade, não relacionado apenas ao tempo cronológico e envelhecimento natural do organismo, mas em relação a história atlética do indivíduo, as lesões prévias, a menor resistência a fadiga, etc. Quanto a genética, deve-se levar em consideração os alinhamentos anatômicos, estrutura óssea e cartilaginosa, tipos de fibras musculares, entre outras características que podem afetar a tolerância às cargas. Fatores ligados ao gênero, como o ângulo Q aumentado nas mulheres, podem contribuir para o aumento da incidência de certos tipos de agravos. Os fatores imutáveis devem ser analisados pelos profissionais de saúde antes do início da vida de treinamentos. Uma boa estratégia é chamada de “avaliação pré-participação” e normalmente é realizada pelo médico do esporte que após consulta direciona com uma equipe multidisciplinar as atividades/exercícios que devem ou não serem realizados, com vias a prevenção de lesões e garantia da vida atlética longa.

E, enfim, o que fazer para prevenir que lesões ocorram? Acredito que a principal maneira é a inclusão, em qualquer tipo de treinamento, de medidas preventivas. Abaixo destaco cinco delas que devem estar sempre presentes:

  1. Treinamento neuromuscular contínuo e direcionado para cada faze do ciclo competitivo ou de vida do indivíduo.
  2. Melhorias contínuas nos padrões de movimento para garantir a eficiência motora e ativação adequada dos componentes músculo-articulo-ligamentar.
  3. Incluir treinos de equilíbrio, coordenação e propriocepção para alunos com qualquer objetivo específico e em todas as idades.
  4. Aumentar a estabilidade do “CORE” deixando o centro do corpo no comando dos movimentos dinâmicos o que aumenta a eficiência corporal e reduz muito o surgimento de lesões estruturais.
  5. Aperfeiçoar sempre os movimentos técnicos do esporte ou exercício físico já que serão repetidos corriqueiramente para evitar as lesões por esforço repetitivo.

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