Estabilização Neuromuscular Dinâmica, ou “DNS”, é uma abordagem manual para otimizar o sistema de movimento com base nos princípios científicos da cinesiologia do desenvolvimento humano, com objetivo de reabilitação e desempenho esportivo para as lesões musculoesqueléticas e sua prevenção. O desenvolvedor do DNS foi o professor Pavel Kolar, PT, PhD, um fisioterapeuta tcheco.

A base para as teorias incluídas nessa metodologia é que o desenvolvimento da função motora humana na primeira infância é geneticamente pré-determinado e segue um padrão previsível. Esses padrões ou programas motores são formados à medida que o sistema nervoso central (SNC) amadurece, permitindo que o bebê controle a postura, alcance a postura ereta contra a gravidade e se mova propositalmente por meio da atividade muscular. Esta relação é muito aparente na presença de uma lesão do SNC, onde esta sincronia do desenvolvimento e coordenação muscular são afetadas negativamente.

A ideia do DNS é utilizar os programas motores primitivos, aqueles movimentos desenvolvidos, sem interferência externa, pelo sistema nervoso central no primeiro ano de vida

Então, a metodologia DNS está enraizada nos padrões naturais de movimento do desenvolvimento humano construído pelo sistema nervoso central, pois esta programação central desenvolvida durante os primeiros anos críticos da vida, ocorre automaticamente no decurso da maturação do SNC.

Você já se perguntou como os bebês aprendem a rolar, engatinhar, levantar ou até mesmo começar a andar? Tudo isso deve-se a um processo inato que está pré-programado em nossos cérebros.

Tradicionalmente, nós educadores físicos, quando pensamos no fortalecimento muscular em nossas extremidades, automaticamente pensamos em qual é a origem e a inserção desse músculo e como podemos contrair esse músculo. A abordagem do DNS é muito mais funcional. Ele traz as juntas e segmentos de suporte para uma posição funcionalmente alinhada. Se um músculo é disfuncional (fraco), toda a função estabilizadora é perturbada e a qualidade do movimento é comprometida.

Como o DNS é baseado, portanto, nos princípios da Cinesiologia do Desenvolvimento, devemos comparar o padrão de estabilização dos atletas, ou clientes em geral, com o padrão de estabilização do que o movimento padrão normal que é derivado da observação de um bebê saudável em desenvolvimento.

Você sabia, por exemplo, que os músculos do diafragma, assoalho pélvico e transverso abdominal regulam a pressão interna abdominal e promovem a estabilização postural lombopélvica anterior? Pois é, o diafragma tem dupla função e além de ser essencial para a mecânica da respiração também é fundamental para estabilização da coluna vertebral e todos os movimentos resultantes desta articulação, especialmente nas tarefas complexas da atividade esportiva de alta performance. Esta metodologia tem grande foco na musculatura diafragmática, na respiração e posicionamento do tronco com bem fazem a yoga e o pilates também, portanto, porque não dedicar um tempo do treinamento personalizado para este tema também?

Bom e como melhorar as posturas dos nossos alunos?

Para corrigir as posturas erradas, prevenir lesões e reabilitar atletas e pessoas comuns das suas dores crônicas é necessário que se tenha um sistema medular integrado de estabilização. O grande problema é que nossos vícios de postura e as lesões as quais somos submetidos podem interferir neste sistema, provavelmente levando a tensão ou uso excessivo devido aos movimentos compensatórios criados para mantermos a postura. Caso estes desequilíbrios e tensões musculares não forem resolvidas, podem-se criar programar motores chamados pelos autores de “sub-ótimos” que se forem persistentes/repetidos, consequentemente serão fixados em nosso Sistema Nervoso Central, desenvolvendo dor crônica e baixo desempenho.

Há necessidade enfim de análise cuidadosa de todos os movimentos gerados pelos nossos clientes. Uma boa ideia é propor os posicionamentos primitivos e analisar as compensações realizadas pelos indivíduos.

Uma das premissas chaves da abordagem do DNS é que “toda posição articular depende da função muscular estabilizadora e coordenação dos músculos locais e distantes a fim de assegurar uma posição neutra centralizada nas articulações da cadeia cinética”.

Ou seja, a qualidade desta coordenação é crítica para a função articular e influencia não somente um único local anatômico, mas também regional e global. É simples pensar então que o nosso corpo funciona como uma unidade única e não segmentada por compartimentos, principalmente quando imaginamos movimentos complexos. Para realizar qualquer atividade corporal precisamos de atuação sinérgica de vários grupos musculares. Caso a estabilidade, mobilidade ou equilíbrio desses grupos musculares estiver comprometida, a capacidade de transferir as forças eficientemente através do tronco para as extremidades será afetada. Partindo-se deste princípio o CORE, centro do corpo, passou a ser trabalhado extensivamente nos programas de treinamento físico já que a estabilização do chamado “núcleo” para o DNS é um princípio fundamental para a eficiência dos movimentos.

A patologia ou disfunção ocorre frequentemente quando o músculo é bastante forte em sua função fásica (ou movimentador primário), mas desativado em sua função postural (estabilizadora), resultando assim em instabilidade postural. Um padrão ruim de estabilização é facilmente fixado no SNC, já que a estabilização é uma função automática e subconsciente. A estabilização anormal é então integrada em qualquer movimento comprometendo a qualidade dos padrões de movimento, resultando em sobrecarga, desempenho esportivo diminuído e risco aumentado de lesões. Sobrecarga repetida inúmeras vezes devido a um padrão ruim de estabilização é uma causa primária frequente de perturbações do movimento e síndromes dolorosas. (KOBESOVA, et al., 2017).

Para a análise dos movimentos o que devemos fazer? A abordagem ao fortalecimento e recuperação da lesão precisa ser avaliada como um padrão de movimento completo, e não isolando grupos musculares isolados. Exercícios para recuperar a força funcional precisam estar relacionados ao que está acontecendo mecanicamente para permitir a melhor recuperação possível e reduzir o fator “PORQUE”. É fundamental fortalecer os músculos fracos em padrões primitivos, uma vez que essas posições de peso corporal estão enraizadas em nossos cérebros.

 A tentativa do DNS é restabelecer a estabilização corporal através da função locomotora simulando os movimentos primitivos controlados pelos centros cerebrais, estabelecidos nos anos iniciais da vida. É um RE-START cerebral! A tentativa é que o cérebro recupere o controle da estabilidade dos movimentos a partir da reprodução e repetição dos movimentos primitivos, até que os padrões ideais de movimento se tornem normais e inconscientes.

Segundo os idealizadores do DNS vários tipos de pacientes podem se beneficiar com o método como aqueles fracos muscularemente ou idosos que queiram recuperar a estabilidade do seu corpo, atletas profissionais (ou até mesmo amadores de alto nível) que querem melhorar o desempenho, outros que sofrem de lesões como os prolapsos do disco intervertebral ou até mesmo portadores de distúrbios neurológicos crônicos.

Enfim, como escreve Kobesova et al. (2017, p.23) “A etiologia da dor musculoesquelética, em particular a dor lombar, frequentemente é avaliada do ponto de vista anatômico e biomecânica e da influência de forças externas (p. ex. carga) agindo sobre a coluna. Contudo a avaliação das forças induzidas pela própria musculatura do paciente com frequência está faltando. A função estabilizadora dos músculos desempenha uma função postural crítica e decisiva, e depende da qualidade do controle do sistema nervoso central. […] A DNS apresenta um conjunto crítico de testes funcionais que avalia a estabilidade funcional dos estabilizadores profundos da coluna e articulações, ajudando a achar a “ligação-chave” da disfunção”.

A estratégia final é “treinar o cérebro” a manter o controle central, a estabilidade das articulações e qualidade ideal do movimento restaurada durante a intervenção terapêutica. Isso se consegue por ativação/estimulação dos estabilizadores ao colocar o paciente em posições primitivas do desenvolvimento. E, finalmente, por meio da repetição dos exercícios, o controle central estabelece um modelo automático que se torna uma parte fundamental dos movimentos cotidianos. (KOBESOVA, et al., 2017).

Vamos todos voltarmos ao nosso primeiro ano de vida, o que acham?

REFERÊNCIAS:
KOBESOVA, A., KOLAR, P., FRANK, C. Clinical commentary dynamic neuromuscular stabilization & sports rehabilitation. International Journal of Sports Physical Therapy. V 8, N 1, Fev. 2013, p. 62.
KOBESOVA, A. KOLAR, P. Developmental Kinesiology: Three levels of motor control in the assessement and treatment of the motor system. Journal of Bodywork and Movement Therapies. 2013.
KOLAR, P., et al. Clinical Rehabilitation. 1st Edition. Rehabilitation Prague School. 2013.
SAHRMANN S.  Diagnosis and Treatment of Movement Impairment Syndromes. 1st Edition. Mosby, Inc. 2002.
DI FRANCESCO, T. 7 things you didn’t know about dynamic neuromuscular stabilization. Disponível em: http://www.tdathletesedge.com/blog/2016/4/3/dynamic-neuromuscular-stabilizati on-and-its-integration-to-sports. Agosto, 2016.
KIBERD, E. A Beginner’s Guide to Dynamic Neuromuscular Stabilization. Disponível em: https://urbanwellnessclinic.com/beginners-guide-dynamic-neuromuscular-stabilization/, acessado em julho, 2017.

 

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